sábado, 30 de abril de 2016

Comemorar o quê ?

30 de abril de 1854

Há 162 anos era inaugurada a PRIMEIRA ferrovia do Brasil: a  Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petropolis, mais conhecida como Estrada de Ferro Mauá. Além da implantação de um sistema eficiente de transportes de carga e de passageiros, havia a integração entre o transporte marítimo e o ferroviário, com embarques em barcas modernas em um cais na cidade do Rio de Janeiro, e o transbordo para o trem em Guia de Pacobaíba, em Magé. Algo que até nos dias de hoje não é muito comum, mas bastante eficiente para a época e hoje, uma idéia à altura de um dos maiores empreendedores da história do país: Irineu Evangelista de Souza, o Barão e Visconde de Mauá.

É algo pra se comemorar ? Sim, e muito ! O Brasil entrou na era moderna com a implantação das ferrovias em solo nacional. E depois ?

Até 1958 a malha ferroviária nacional cresceu até atingir a marca de mais de 37.000 kms de linhas. E olha que nessa época várias ferrovias já haviam sido construídas e erradicadas, e muitas outras nem chegaram a sair do papel. É uma marca a se comemorar ? Sim, e muito ! E depois ?

Com a criação da RFFSA em 1957, o que era uma evolução de certa forma desorganizada teve a promessa de centralização, com a administração de quase todas as ferrovias Brasileiras sob o crivo de apenas uma companhia. Promessa de melhor administração, modernização, ampliação das ferrovias ... era algo pra se comemorar ? Sim ... mas e depois ?

Durante a gestão da RFFSA foi implantado pouco tempo depois de sua criação um Grupo de Estudos de Ramais Anti-Econômicos ou Deficitários. A função deste grupo era erradicar linhas ferroviárias consideradas não rentáveis ou obsoletas. Ao invés de se criar um estudo sério, onde ficaria claro que algumas linhas poderiam render mais se fossem modernizadas, se tivessem seus traçados readequados, se tivessem o material rodante (locomotivas, carros e vagões) renovados, simplesmente erradicaram linhas com pouco retorno financeiro (ninguém pensou na população dependente de transporte, apenas na carga que pudesse render receitas) e algumas que que davam certo retorno financeiro, foram simplesmente abandonadas, mantendo o serviço caótico, o que afastou os passageiros para outros meios de transporte. Comemorar o quê ?

Linhas e linhas foram sendo destruídas, com a promessa de nos seus lugarers construirem rodovias, o modo de se locomover do futuro. Realmente era uma previsão futurística: no futuro ficaremos presos nos congestionamentos, no futuro acidentes acontecerão causando perdas materiais e humanas, no futuro teremos prejuízos com cargas perdidas ou atrasadas ao chegar no destino ... comemorar o quê ?

As décadas foram passando, ferrovias sendo dizimadas, rodovias não foram construídas para as substituirem em alguns casos, populações foram migrando, lugarejos foram morrendo, pessoas foram perdendo o seu berço, a história de famílias sendo perdidas ... comemorar o quê ?

Dentre muitas outras, a Estrada de Ferro Rio d'Ouro, a EF Melhoramentos do Brazil, EF Príncipe do Grão-Pará, EF Cantagalo, EF Maricá e até a pioneira e preciosa EF Mauá foram sucumbindo, se acabando, abandonadas perante a um extermínio dos trilhos no Rio de Janeiro. Comemorar o quê ?

Trens de passageiros como o Vera Cruz (Rio x Belo Horizonte), o Santa Cruz (Rio de Janeiro x São Paulo), o Macaquinho (Rio de Janeiro x Mangaratiba), o Cacique (Rio x Vitória) e vários outros trens de média e longa distância foram sendo retirados de circulação. Próximo ao fim da RFFSA, um golpe de misericórdia: o trem Barrinha, que ligava Japeri a Barra do Piraí foi vítima de uma tragédia, que sepultou o serviço de vez, já interrompido algumas vezes antes pela própria RFFSA. Comemorar o quê ?

Passando o tempo, passando os meses, passando os anos, passando as décadas, a mentalidade aparentemente mudando, a mobilidade necessitando de transportes sobre trilhos, parecia que algo mudaria para melhor. E aí como não existia mais a RFFSA, que tinha sua função considerado como principal o transporte de cargas ao invés do de passageiros, foi a vez dos governos em diversas esferas fazer o seu sórdido papel, ao invés de fazer o que deveria: desorganização urbana, aglomeração populacional inadequada, má distribuição de riqueza, corrupção e desvio de verbas ... e com isso alguns trechos ferroviários foram sendo literalmente engolidos ou removidos: os trechos Santa Cruz x Distrito Industrial, Niterói x Visconde de Itaboraí, Magé x Visconde de Itaboraí, Campos x Guarus, Bonde de Santa Teresa ... comemorar o quê ?

30 de abril de 2016

162 anos depois, o que temos a se comemorar ? A expansão da Linha 1 do Metrô, conhecida por Linha 4, entre General Osório e a Barra da Tijuca ? Talvez ... a reativação dos Bondes de Santa Teresa ? Legal, pode ser. O Trem -Turístico Miguel Pereira x Governador Portela ? Quem sabe ? A implantação do VLT na zona Centro-Portuária da cidade. Legal. Mas e o sistema ferroviário/metroviário fluminense ? Está funcionando satisfatoriamente ? Certamente que não. As promessas de reativação de ferrovias históricas ou implantação de trechos turísticos sairão mesmo do papel ? Do jeito que parece, não sairão. Recentemente o fantasma de erradicação de linhas voltou, com o anúncio, da concessionária de transportes ferroviários que opera na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, de que uma das linhas poderá ter a circulação interrompida por falta de segurança para funcionar. Além de outros fatores, uma consequência de uma política irresponsável dos governos durante décadas e décadas.
Então, se nem em Guia de Pacobaíba, onde se celebra todos os anos a inauguração da EF Mauá e onde se fazem promessas de reativação; Guia de Pacobaíba, berço da ferrovia nacional; Guia de Pacobaíba, local onde está a primeira estação ferroviária do país e onde correu os trilhos pela primeira vez neste país; se nem lá houve celebrações neste dia de hoje, a pergunta que se repetiu durante todo esse texto é esta: COMEMORAR O QUÊ ? 


2 comentários:

Olá. Como faço pra entrar em contato? Gostaria de saber se em seus históricos há fotos da ferrovia que passava dentro da rodoviária novo rio e os trilhos que circulavam pela região portuária principalmente próximo aos moinhos, na saúde e gamboa. Obrigado! Daniel.

Lamentável, para chorar mesmo.
Para mim, essa linha 4 do metrô é falácia, enquanto a maior parte da Zona Norte, que é apenas servida por transportes rodoviários, fica a minguá e refém das empresas de ônibus. A Zona Oeste ainda está melhor servida, pois temos o trem, mas também apenas até o início de Santa Cruz, depois é coitado de quem mora mais pra lá!
É uma mentalidade absurdo erradicar meios de transportes que se mostram pouco rentáveis, quando a prioridade é o transporte para a população e não os lucros. E pelo que sabemos, os lucros são sempre grandes e suficientes para o maior dos gananciosos, basta não haver desvios.

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